Poesia verso(us) Política

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A convivência entre poesia e política nunca foi das mais fáceis. Mas há tempos elas se tornaram vertentes tão inconversáveis, que o temor de uma irreconciliação tomou conta de mim. Mesmo parecendo possuir nascentes antagônicas, ambas deveriam produzir um inquieto bem estar. A poesia lida com o sonho do concreto em puro abstrato. E a política com a materialidade do sonho em pura concretude. Não há como não haver conflitos, não há como não viver a dicotomia do imponderável.

E recordo certo político bem fresco nos códigos da política, há pouco tempo atrás, ao fazer de conta que entendeu uma frase que eu havia dito, usou a exclamação “nossa, um poeta!”. Mal sabia que fazia cavar naquele instante um fosso de ruídos ensurdecedores entre nossas conversas, e que perdura até hoje. Ao tomar seu rumo individual deixou para trás a possibilidade de irromper a máscara de ferro que a política o iria obrigar a carregar.

Essa máscara parece ser comum aos políticos que vemos em entrevistas, respondendo perguntas ou elucubrando futuros. Perdeu a chance da autenticidade, preferindo a palidez da dissimulação. Enveredou por pretensas linhas retas, mas abismou-se no comum labirinto da mentira, usando as palavras, não para publicar a esperança da verdade, mas para difundir o desgosto da ilusão.

Tento até hoje, por mais inocente que possa parecer, continuar enveredado pelos motivos que me tornaram a acreditar na política como um substrato humano de melhoria, mesmo tendo me tornado um poeta perdido em esperanças e sonhos. Não consigo ver outra saída para todos nós, senão compreender a poesia e aplicar a política como antídoto para as mazelas que vemos crer.

Não há sonho mais auspicioso do que uma política pública que dá certo. Não há poesia mais insinuante aos anseios do que a que tece palavras com a verdade que temos possuído. É possível sim meu senhor, embora você não entenda a poesia como a base que precisamos todos para a vida, tal qual a política séria que deixamos n’alguma beira de descaminho. Entender o que se lhe diz a poesia é mais que distribuir sentidos ou sinônimos mas, primeiramente, deixar-se sonhar de esperança toda a verdade de viver que há em cada um de nós.

Nada vale a política se não a poetizarem com desvelo e desejo.

Nada vale o populismo desnudo se poeticamente ele não se revelar em essência.

Nada vale a mentira política se cada significado descrito em palavras jamais a será.

Nada vale meu senhor, estar na política e alçar-se em olimpos cargos se, nada,

nada que fazes é a pura poesia onde a alma humana teria compreendido de vós.

 

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Farsa de Princípios

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Assim como a nova musa vermelha, Fátima Bernardes, faz a alegria dos petistas, a Oprah e seu programa, estilo “Povo na TV” com jeito gringo, fazia a alegria dos democratas. E quando ela começou, na última festa capitalista-burguesa do cinema, um discurso com a frase: “tive uma infância difícil, passei dificuldades…”, falei comigo mesmo: nossa, e daí? Também passei dificuldades, e as passo ainda, vez ou outra, nem por isso fico tentando justificar nada ou suscitar lágrimas aos ingênuos. Mas a conversa aqui é outra. Nada mais mentiroso do que o politicamente correto, e essa onda feminista-sexista nada mais é que uma amarra na liberdade individual de cada um de nós, e uma tentativa hipócrita de igualdade de gênero, que só será possível com uma intervenção genética nas próximas gerações.

Essa onda circense das atrizes americanas, confrontada por atrizes francesas e outras, mostra um puritanismo falseado, baseado em que elas jamais se insinuaram, ou mesmo se jogaram sobre produtores, diretores e donos de estúdio só para protagonizar um bom filme. Sei. As artimanhas da Esquerda americana cada vez mais se assemelham às nossas. Esse ar politicamente correto de Oprah não mostra suas verdadeiras facetas. Mas não cabe a nós julgar, certo?

A política tem tentáculos e interesses em todos os cantos da sociedade. Oprah sabe disso, e abusa disso. Usou do seu programa para ajudar a eleger Obama, o insípido presidente que já foi tarde, e que, sim, elegeu Trump, por suas inegáveis e reticentes trapalhadas. Como aqui, quando FHC elegeu Lula, que elegeu Dilma, que nos deu o Temer de graça.

Não se pode confundir crime com tudo de humano que envolve a relação entre os sexos. Estupro é uma coisa, mas se você tem chance de dizer não, desculpe, diga e caia fora, e bote a boca no trombone. A sociedade cultural, sempre tão ciosa de experiências sexuais e lisérgicas, agora se diz quase virgem e inocente das próprias armadilhas. As feministas de plantão deveriam ser mais feministas e menos partidárias, se é que me entendem. No Brasil as feministas são quase um exército de mulheres sem escrúpulo de si, mas absolutamente intolerantes aos escrúpulos alheios.

Tudo isso ilumina bem os anseios de uns sobre controle da liberdade, natalidade e de opinião. Logo ninguém terá o pleno direito à opinião própria, mas a uma regida por artistas semi-analfabetos, políticos semi-honestos e religiosos quase-livres-do-pecado. Ah, e governos quase-sérios.

Detesto hipocrisia. E ver um bando de artistas privilegiados, fazendo-se de paladinos da verdade e do senso comum….poupem-me, por favor. Nossa TV também tem alguns desses, que querem impor a sua verdade para muitos, mas não passam de uma farsa. Pseudo-intelectuais do tablado querendo perdão para criminosos do dinheiro público. Pilantras. Pablos e Anitas, do pior que poderíamos produzir, conduzindo um rebanho de pessoas que usam o pior, pagam pelo melhor e riem-se, riem-se sem um pingo de razão.

Assim fazemos de nós o modelo para nossos filhos, num formato deturpado e vazio. Salve a América e seus burgueses hipócritas, resto de uma democracia que faliu e agora enxerga apenas em Trump seu pior inimigo, quando este está diante de seus próprios olhos. Ação!

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p.s.: sim, Oprah é candidata à presidência dos EUA. Está bom pra você?

Coletivismo

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Não tenho dúvida de que a vaidade e a ganância são e deverão continuar a ser os grandes males que afligem a sociedade brasileira e o país, como um todo. Os valores que nos regem há séculos, quiçá desde o nosso fatídico descobrimento, mostram-se insuficientes para que façamos deste sofrido país, algum dia, uma Nação de verdade. A paixão pelo poder que humilha nossos iguais, é tradição entre nós, ousaria mesmo dizer que faz parte do DNA brazuca, desde que um imbecil qualquer vomitou o famoso “sabe com quem está falando?”. Desde então…

É fácil ver que esta teoria é válida e ativa em nossas vidas. Quem de nós já não teve um amigo ou colega de trabalho que ascendeu e depois nos ignorou? E lá vem as assertivas dos amigos sobre o tal…”subiu e esqueceu dos amigos”, ou “deixa estar, quando eu for rico, vou fazer que nem o conheço”. Alguns podem dizer que isso é da natureza humana, mas eu lhes digo que não, isso é a natureza brasileira que aflora, em especial. Os absurdos que vivemos hoje na política são bem típicos disso. Senão, alguém arriscaria contradizer que toda essa corrupção com que nos brindam os políticos não é por ganância e/ou vaidade? Alguém ousaria negar que o poder não sublima o que temos de pior em nós, por isso todos os presidentes após o regime militar têm suspeitas de corrupção e foram eternos vaidosos no poder, sem falar de seus ministros?

Na contramão dessas vertentes humanamente rasteiras e incivilizadas está o COLETIVISMO, algo que europeus e alguns asiáticos descobriram depois de guerras. Por isso o que se valoriza lá é o público e não o individual, ao contrário de nós e de nossa esperança de sermos superiores a iguais a nós. Para aqueles que acreditam no COLETIVISMO, ser superior é ter à disposição serviços públicos, como saúde, educação, previdência, zeladoria, cultura e lazer de qualidade, não o que o nosso dinheiro suado e insuficiente pode pagar de melhor. Essa é nossa grande diferença com o mundo civilizado: eles exigem que o público seja superior para todos e nós queremos ser ricos para poder pagar o que os outros não tem. Não temos ainda a consciência de sociedade, muito menos de Nação. E é por isso que os políticos, os gananciosos e vaidosos de sempre, nos impingem planos de saúde, escolas caras, planos de previdência privada, segurança particular, condomínios fechados, carros blindados e etc.

Afinal de contas, que país é este que construímos para o futuro de nossos familiares, já que não ouso dizer para nossos vizinhos e amigos, se é que me entendem? É explícita a covardia com que nos tratam como brasileiros, esses, os vaidosos e os gananciosos. Até mesmo os menos abastados chamam-nos de “pobres”, não de brasileiros, porque eles nos veem assim. Esses gananciosos deveriam atuar com a vaidade direcionada para que todos pudessem sair das favelas e ir para uma casa digna, ter ensino e saúde de qualidade, segurança pública e não de traficantes, ou seja, um país que enxergasse a todos de forma igualitária e coletiva. Mas ao contrário do que pensamos, eles não possuem a visão distorcida, mas o caráter.

Nos juntam em cidades-dormitórios contra nossa própria vontade, enquanto tomam nossos sítios e fazendas, e nos obrigam a pagar caro o que quase de graça colhíamos. Fazem-nos pagar por um ensino que nada irá nos trazer senão a submissão classista, nada mais. Somos escravos sim! Continuamos a ser, da vaidade e da ganância de muitos que chamamos de brasileiros, mas que não nos consideram iguais. Cada um de nós significa apenas um voto e uma fonte pagadora de impostos, um pequeno tijolo que sustenta mansões, litros de combustível especial para iates e carros esportivos. Aliás, vimos muitos desses bens serem apreendidos pela Polícia Federal dos políticos famosos presos, que nós fizemos vaidosos e gananciosos.

Um povo só alcança seu status de coletividade quando pensa como alguém que precisa ser apenas um no meio de tantos, mas indiscutivelmente importante para o todo. Somente assim faremos deste um país de verdade e uma Nação com futuro. Assim foi feito na história, em todas as revoluções, e somente assim conseguiremos ser livres de verdade.

E aos que atentam hoje contra um povo e se servem da política como forma de atender às suas vaidades e ganâncias, a cadeia ou mesmo a forca, que é como devem morrer, não como vingança, mas como Justiça Coletiva, os que fizeram de seus sonhos o pesadelo de milhões. Devem ser esquecidos e relegados ao ostracismo, que cai bem aos apátridas.

Entrevista para o Canal Bom Saber

Confira minha entrevista para o Canal Bom Saber. Claro, falo de política, mas também uma análise da conjuntura econômica e social do Brasil e do mundo. Curta a entrevista e o canal.

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Saudosismo 02

Agora, muito do que antes fazíamos, é pecado. Soltar balões é uma delas. Algo que era uma alegria hoje é crime, porque os baloeiros tornaram-se profissionais, criaram balões monstruosos com cangalhas de fogos de artifício poderosas e que podem causar acidentes realmente sérios. Mas quando éramos apenas crianças balões eram sinônimo de festas juninas, pipoca, paçoca, pinhão, amendoim, fogueira […] Noites em que São Paulo ainda possuía garoa, frio e vizinhos, que curtiam estar juntos, conviver e se divertir em uma festa de rua. Ficávamos nas noites sem fim à espreita dos balões “apagados” (quando acabava a parafina de suas tochas e seu fogo se exauria) e que ficavam perdidos na escuridão e caiam, caiam até que um de nós, que mirávamos o céu como sentinelas, os recolhesse vitoriosos. Vinham pretos da fuligem do fogo que lhes era combustível, e eram um prêmio à nossa caça noturna. Durante o dia tentávamos comprar o maior número de folhas de papel seda para fazer nossos próprios balões, com orgulho. Balão caixa, peão, charuto, mexerica, todos eram lindos, coloridos e levavam nosso orgulho infantil e aeronáutico. Pulávamos o muro do cemitério para roubar umas poucas velas (espero que não tenhamos deixado ninguém na escuridão…) para as tochas. Depois, era ralar as velas, enrolar num saco de estopa como um rocambole e amarrar com arame que vinham nas caixas de maçãs da feira, e finalizar, fazendo a boca do balão mais raiada possível. Claro que nem sempre tínhamos o dinheiro para as folhas papel de seda e para a cola, então corríamos atrás de papel jornal árabe, que era quase tão fino como o papel de seda. Mas quando a turma arrumava dinheiro, era o papel de seda mais colorido que ia para o céu. Xadrez, listrado, multicolorido. Eram tardes de sol, sem vento. Acendíamos a tocha como quem acende uma chama para a cerimônia dos espíritos pagãos. Esperávamos o ar quente do fogo fazer seu trabalho e encher o balão, deixando-o leve. Ao começar a flutuar de nossas mãos, nossa esperança o inflava ainda mais, e nos preparávamos para o mais longínquo voo, junto às quase inexistentes nuvens do céu. Era uma emoção pura, alegria verdadeira e sonho daquela infância.

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p.s.: A mais tenra lembrança que tenho deles, foi no dia em que o Brasil se sagrou campeão na copa do mundo de futebol de 70. Nunca, nunca vi tanto balão nos céus de São Paulo. Aliás, não se via céu, viam-se balões e pequenos espaços azuis, num tom de fim de tarde. Lembranças distantes e tão vivas.

Dá um trocado aí, dotô…

Meus lídimos e seletos leitores já houveram de perceber o quanto no Brasil é chic se dizer que foi pobre. Os endinheirados adoram dizer que, embora vivam hoje nababescamente, um dia lá atrás, muito lá atrás, foram pobres, passaram fome e, o supra-sumo dessa mania, confessar que sua mãe era lavadeira. Putz, esse é o ápice para quem se deleita em dizer que um dia comeu o pão que o diabo amassou. É possível nessa tribo encontrar gente de todos os níveis institucionais do país. O último, agora há pouco, foi Joaquim Barbosa, que até levou sua lavadeira, digo mãe, para vê-lo galgar os degraus da suprema corte brasileira. E lá estava ele, filho de mais uma lavadeira sendo redimido pela sociedade que no início o baniu de suas hostes. Lulla foi outro que tinha a mãe lavadeira, mas esse aí é outra história. Pelo menos no que  diz respeito a tornar-se alguém. Mas a verborragia dos pobres não para por aí, não. Há uma classe de pessoas que, pressupõe-se, foi todinha feita de lavadeiras. Os cantores e cantoras de MPB. Todo mundo chora ao lembrar de suas origens humildes, sua mãe no tanque lavando roupa pra fora, dando duro enquanto seu pai só enchia a cara de cachaça, lógico. Mas se a gente for pensar melhor, essa característica pode ser usada em nosso favor, sim. Vejam caros leitores, uma ideia. Se criarmos cursos intensivos de “lavadeiras pra fora” e lhes dermos condições para que elas possam ter um ambiente propício, um amante pinguço e morar na favela, e com isso ela poder encher o barraco de filhos, teremos uma possibilidade grande de que muitos desses míseros seres venham a tornar-se presidentes, prefeitos, deputados, cantores, juízes, pastores e membros famosos de uma facção criminosa. Às vezes fico olhando para trás e lembro que minha mãe lavava roupa no tanque também. Mas pra fora nunca. Talvez por isso eu não tenha dado certo na vida. Talvez por isso eu não tenha me tornado um alguém, com discurso social e lágrimas nos olhos. E quando eu lembro que poderia ter sido filho de lavadeira, me dá uma raiva tão grande de não tê-lo sido. Por que só comigo? Por que eles puderam e eu não? Hoje talvez eu estaria nos palcos, em programas de entrevistas na TV, escrevendo livros que contassem a minha história. Por que eu não? Por que a sorte não me sorriu?

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p.s.: Hoje a única coisa que eu sei é usar Vanish para tirar as manchas das roupas, mas as rugas do meu passado só com passe bem.

Nelson Rodrigues

Desde que iniciei a frequentar teatros e rodas de discussão de textos, bem antes do meu tempo de faculdade, ouço falar de William Shakespeare, como sendo o grande mestre da dramaturgia mundial. E as meninas do sexo masculino e feminino com quem convivi eram fissuradas por interpretar suas obras. E comportavam-se como se estivessem no cio ao declamar suas estrofes de padrão inglês. Espero que poucos entendidos de teatro estejam lendo este post, porque eu vou ser bem franco: eu não gosto de Shakespeare! Pronto, falei. Revelarei uma razão do porquê disso. Atende pelo nome de Nelson Rodrigues. Podem me chamar de herege do teatro ou do que quiserem, mas para mim Nelson Rodrigues é o cara. Sua obra carrega um valor tão profundo de humanidade que é difícil não enxergar facetas de todos nós em cada um de seus personagens. E essa humanidade é tão calma quanto ruidosa. Tão verdadeira quanto cínica, tão virgem quanto prostituta. Nelson sabia lidar com a entranhas humanas como ninguém. Não têm essa coisa de “ser ou não ser”, tem o “sou mesmo, porra”. Isso é verdadeiramente humano e visceral. Particulamente eu não gosto muito de efemérides, mas vou fazer uma excessão para o gênio da dramaturgia humana. Com Nelson Rodrigues é possível enxergar o perfume do sorriso ardente e a cólera da dor insana. Prefiro tê-lo como um mensageiro das angústias que deliciam a alma. Aos críticos de sua humanidade antropofágica e colérica, cito que a lágrima de apenas um olho pode mostrar que Nelson Rodrigues é o melhor que nós, púdicos brasileiros de famílias tradicionais, podemos tentar ser.

p.s.: algumas frases do mestre…

“O pudor é a mais afrodisíaca das virtudes”

“O dinheiro compra até o amor verdadeiro”

“A mulher ideal deve ser dama na mesa e puta na cama”

“Amar é ser fiel a quem nos trai”

“Toda mulher bonita,é namorada lésbica de si mesma”

“O brasileiro não está preparado para ser o maior do mundo em coisa nenhuma. Ser o maior do mundo em qualquer coisa, mesmo em cuspe à distância, implica uma grave, pesada e sufocante responsabilidade”

“Ah, os nossos libertários! Bem os conheço, bem os conheço. Querem a própria liberdade! A dos outros, não. Que se dane a liberdade alheia. Berram contra todos os regimes de força, mas cada qual tem no bolso a sua ditadura”

“Os herois morrem em combate. Não da tempo ao destino de fraga-los na cama ou na cadeira de balanço!”