Arquivo para Brincadeira

Saudosismo 03

Posted in Atitude, Comentário, Humor, Opinião, Poesia, Saudosismo with tags , , , , , , on 11/07/2017 by Carlos Baltazar

O mundo de uma criança apesar de imaginativamente infinito é geometricamente limitado por sua vivência, por isso os traumas e lembranças nos acompanham por toda a vida. Eu adorava chuva, adorava brincar na chuva. Aliás, quando se é criança brinca-se de qualquer coisa, em qualquer lugar. Mas na chuva minha diversão era fazer barquinhos de papel e colocá-los para flutuar na água que corria no meio fio. E eram muitos barcos, que partiam para nunca mais voltar, porque se perdiam na correnteza. Depois que todos os navios deixavam o cais era hora de pisar em poças d’água. Naquele instante nada mais verdadeiro do que sentir a chuva e pisar nas poças que se formavam. Lembranças que nunca secam em nós…

barcos

p.s.: Da primeira tempestade que trago na lembrança guardo a cena de uma grande escuridão, rápida, agressiva, muitos raios, trovões próximos, uma intensidade que eu nunca tinha visto. Lembro que só eu estava na rua naquele momento, até que vi, ouvi e senti o estalar muito forte de um trovão. Corri para casa e minha mãe já estava rezando para Santa Bárbara, a santa para quem devemos rezar em dias de tempestades.

Saudosismo 02

Posted in Arte, Esporte, Opinião, Poesia, Polícia, Saudosismo with tags , , , , , , , , , , on 11/06/2017 by Carlos Baltazar

Agora, muito do que antes fazíamos, é pecado. Soltar balões é uma delas. Algo que era uma alegria hoje é crime, porque os baloeiros tornaram-se profissionais, criaram balões monstruosos com cangalhas de fogos de artifício poderosas e que podem causar acidentes realmente sérios. Mas quando éramos apenas crianças balões eram sinônimo de festas juninas, pipoca, paçoca, pinhão, amendoim, fogueira […] Noites em que São Paulo ainda possuía garoa, frio e vizinhos, que curtiam estar juntos, conviver e se divertir em uma festa de rua. Ficávamos nas noites sem fim à espreita dos balões “apagados” (quando acabava a parafina de suas tochas e seu fogo se exauria) e que ficavam perdidos na escuridão e caiam, caiam até que um de nós, que mirávamos o céu como sentinelas, os recolhesse vitoriosos. Vinham pretos da fuligem do fogo que lhes era combustível, e eram um prêmio à nossa caça noturna. Durante o dia tentávamos comprar o maior número de folhas de papel seda para fazer nossos próprios balões, com orgulho. Balão caixa, peão, charuto, mexerica, todos eram lindos, coloridos e levavam nosso orgulho infantil e aeronáutico. Pulávamos o muro do cemitério para roubar umas poucas velas (espero que não tenhamos deixado ninguém na escuridão…) para as tochas. Depois, era ralar as velas, enrolar num saco de estopa como um rocambole e amarrar com arame que vinham nas caixas de maçãs da feira, e finalizar, fazendo a boca do balão mais raiada possível. Claro que nem sempre tínhamos o dinheiro para as folhas papel de seda e para a cola, então corríamos atrás de papel jornal árabe, que era quase tão fino como o papel de seda. Mas quando a turma arrumava dinheiro, era o papel de seda mais colorido que ia para o céu. Xadrez, listrado, multicolorido. Eram tardes de sol, sem vento. Acendíamos a tocha como quem acende uma chama para a cerimônia dos espíritos pagãos. Esperávamos o ar quente do fogo fazer seu trabalho e encher o balão, deixando-o leve. Ao começar a flutuar de nossas mãos, nossa esperança o inflava ainda mais, e nos preparávamos para o mais longínquo voo, junto às quase inexistentes nuvens do céu. Era uma emoção pura, alegria verdadeira e sonho daquela infância.

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p.s.: A mais tenra lembrança que tenho deles, foi no dia em que o Brasil se sagrou campeão na copa do mundo de futebol de 70. Nunca, nunca vi tanto balão nos céus de São Paulo. Aliás, não se via céu, viam-se balões e pequenos espaços azuis, num tom de fim de tarde. Lembranças distantes e tão vivas.

Brincadeira

Posted in Atualidades, Humor, Opinião, Poesia, Saudosismo with tags , , on 22/05/2012 by Carlos Baltazar

Vez ou outra bate aquela saudade dos tempo de infância, das brincadeiras, da criatividade com que fazíamos do dia uma história inesquecível e que carregamos por toda a vida. Um simples jogo de bola parecia a final do campeonato brasileiro. Um jogo de taco, a final do beisebol americano, Um jogo de peão, onde a posse de sua arma era posta em jogo numa cela, era como uma batalha sem fim. E por conta de um inocente jogo de bolinha de gude já vi paus homéricos entre amigos, depois de vigorosas estecadas entre bolinhas de gude que jogavam-nas para bem longe do campo de disputa. Sem falar n a nossa mais esperada brincadeira, o esconde-esconde, quando as meninas partilhavam sua companhia. E vez ou outra, ficávamos escondidos juntos com a menina que dominava nossos sonhos, com uma real possibilidade de pegar em sua mão e ver seu sorriso bem de perto. Não sou saudosista, mas lembrar desses instantes da infância melhoram minha expectativa de que um dia voltaremos a lidar assim uns com os outros. Brincar, brigar, rir, chorar, viver. Nenhuma tecnologia de hoje é capaz de trazer à tona emoções tão gostosas. Andar na chuva, empinar uma pipa, enxergar o futuro como algo tão distante que mal havia neurônios para alcançá-lo. Isso parece papo de velho, mas na verdade quando a gente consegue se ver assim tão distante, e somente assim, é que podemos calcular o quanto mudamos o rumo daquilo que era nosso objetivo. Eu gostaria de voltar a ser criança pelo simples gosto de rir sem razão, e de dizer para a aquela menina que se escondia comigo nas brincadeiras de esconde-esconde, que eu adorava estar ali com ela, vendo seu sorriso de criança.

p.s.: a cada dia nos distanciamos mais da essência humana…